Reviews#107 – O Negrinho do Pastoreio (André Diniz/Marcela Mannheimer)

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Como vocês bem devem lembrar, André Diniz passou por aqui no ano passado com o seu elogiadíssimo Morro da Favela, que foi recentemente editado na França. Também já disse divesrsas vezes que se trata de um dos mais prolíficos quadrinhistas brasileiros do Século XXI, mantendo uma agenda regular e plural de lançamentos anuais, tanto como roteirista quanto como desenhista, sempre por várias editoras diferentes. 

Em seu primeiro livro editado pela Ygarapé Quadrinhos (selo da Adler Editora), Diniz foi convidado a ilustrar a lenda do Negrinho do Pastoreio, mas decidiu ir um pouco além disso. Apesar de ser uma história vinda da tradição oral que ganhou fama ao ser espalhada pelos abolicionistas no século XIX, o próprio autor revela que não é grande fã dessa página do folclore brasileiro por ser o Negrinho um personagem muito passivo, sem vontade própria, um estereótipo de escravo burro, preguiçoso e incompetente. Na HQ, então, podemos ver a livre adaptação da lenda, mostrando o Negrinho – que nunca foi batizado e se acostumou a ser chamado assim - com consciência, inteligência, emoções e sua busca pela liberdade. 

E essa espécie de revisionismo aqui cai como uma luva, já que algumas de nossas lendas, assim como os livros de história que lemos no colégio, são invenções baratas ou histórias semi-contadas. Para quem não conhece, Negrinho do Pastoreio é uma lenda afro-cristã sobre um coronel que faz o seu escravo mais mirrado participar de uma corrida contra o cavalo de outro coronel. A tragédia começa quando o cavalo o derruba e, depois de ser açoitado e ser obrigado a pastorar vários cavalos de uma vez, o cansaço o fez perder todos. Como castigo, ele é jogado num formigueiro para ser devorado. Ao procurar pelos restos de sua carcaça, o Coronel o encontra sem ferimentos, ao lado de sua madrinha, a Virgem Maria. Apesar da adaptação livre, o que temos é uma expansão da lenda, com seus contornos políticos e religiosos mais bem delineados, sem que o seu sentido e suas intenção se percam.  

Negrinho do Pastoreio é mais um dos trabalhos de André Diniz voltado para a história e a consciência do homem negro no país, depois de livros como Quilombo Orum-Aiê, A Cachoeira de Paulo Afonso, Morro da Favela, Chico Rei e Mwindo, quase todos com um traço que mistura influência de arte africana e de ilustrações de cordel. Essa obra de qualidade que o autor vem construíndo tem uma importância socio-cultural tremenda. Com uma ótima coloração de Marcela Mannheimer, Negrinho do Pastoreio é mais “leve” (embora a escravidão e os maus tratos sejam assuntos bastante sérios) e curta do que seus trabalhos anteriores, mas não deixa de ter aquela qualidade que se espera de Diniz como um bom contador de histórias.

YGARAPÉ QUADRINHOS E ADLER EDITORA ARESENTAM: O NEGRINHO DO PASTOREIO
FORMATO: 17 x 24 cm
PÁGINAS: 64 páginas em Cores
PREÇO: R$23,00
TEXTO E ARTE: André Diniz
CORES: Marcela Mannheimer 

 

Publicado por na categoria Reviews em May 17th, 2012

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One comment on “Reviews#107 – O Negrinho do Pastoreio (André Diniz/Marcela Mannheimer)

  1. Um protagonista ativo, segundo McKee, é voluntarioso, ou seja, ele QUER mudar de vida (senão continuaria sendo escravo ao final da história!)!
    Mas por ser um Underdog (segundo os roteiros de Tobias), não tem forças físicas pra isso! Sua força é interna: virtude, fé e tenacidade! Além disso, ele é o único que tem permissão para cavalgar o cavalo que pertence ao estancieiro. Tanto é que recebe a tropilha de presente ao final da história.

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