
Malbec é uma banda amazonense surgida em 2008 através do desejo comum entre amigos em fazer música juntos. Em 2009 lançaram o primeiro EP, gravado ao vivo, e no fim do mesmo ano a formação da banda fechou com os integrantes Ian Fonseca (vocal/teclado), Zé Cardoso (vocal/guitarra), Leonardo Garcia (guitarra), Silvio Romano (baixo) e Natan Fonseca (bateria).
Entre 2010 e 2011 construíram um home-studio, na casa do próprio Ian. Era o início da composição e produção do álbum de estréia da Malbec, Paranormal Songs. No inicio de 2012 fizeram um tour de finalização do material, mixando em São Paulo com Victor Rice e masterizando em Nova York com Joe Lambert, dois nomes consagrados internacionalmente no meio.
Com lançamento previsto para o dia 14/06, tive acesso ao disco em primeira mão e me foi concebida essa entrevista exclusiva com o Ian:
Roberto Russo: Paranormal Songs foi produzido e gravado por vocês em um estúdio caseiro próprio, o Rooftop Studio, em Manaus. Como foi esse processo?
Ian Fonseca: De internação, mesmo. E dá até pra puxar o trocadilho de internação mental, porque é um processo exaustivo. Gravar um disco é um negócio mais intenso do que eu imaginava que seria, e em determinados momentos você tem que espairecer pra não perder a sanidade. Não que isso valha pra todas as bandas, mas com a Malbec foi assim. No contraponto, essa imersão absoluta ajuda ao disco transparecer mais do que ele normalmente faria se fosse gravado com rapidez e falta de atenção. Fazíamos tudo na minha casa em sessões entre 6 e 10 horas. Isso no papel, organizado, né? Na prática virávamos as madrugadas, já que todos trabalham e às vezes não podiam estar lá durante o dia. É um processo longo de construção e desconstrução, bate e rebate de idéias. As que achávamos mais coerentes e que sentíamos funcionar iam ficando. Tínhamos uma seleção longa de músicas e até chegar a esse formato final foi necessário que o tempo fosse dizendo o que era mais forte, o que realmente deveria estar no trabalho. E nos preocupamos também em não deixar que o timing passasse. É horrível quando os próprios músicos estão enjoados, desanimados, com o trabalho. A gente foi até o limite de onde a “vibe” tava rolando, e soubemos a hora de dizer chega, de assumir que o trabalho tava pronto e que agora precisávamos partir pra uma nova etapa.
RR: Ouvindo Paranormal Songs, fica a impressão estética de algo bastante urbano e noturno. Há algum conceito por trás do álbum, foi algo pensado?
IF: O álbum é um reflexo da soma dos nossos pensamentos, do nosso jeito de ser. Aí cabe ao ouvinte dar uma interpretação pessoal, na maioria das vezes. Creio que se soa urbano e noturno é porque, de fato, eu, particularmente, sou uma criatura urbana e noturna, e não consigo deixar de transparecer isso no que componho. Mas a idéia de “conceito”, na abordagem clássica de um Dark Side of the Moon (Pink Floyd), não foi proposital. O disco é uma reunião de canções e experimentos que na verdade têm até uma falta de nexo profunda, proposital. Esse é o motivo do título. Paranormal Songs são canções que baixam na gente, durante a vida cotidiana. Elas são mais fortes do que a nossa vontade, e acabaram sendo reunidas no álbum. Paranormal porque é como se elas viessem de lugares diferentes, numa espécie de conexão macabra, metafísica. A resposta pode até soar hippie, mas é uma descrição bem literal do processo pelo qual passamos pra construir esse trabalho, no que diz respeito a composição. Não é à toa que são poucos os momentos do disco em que você vai ouvir falar daquele amor ingênuo, tão presente em canções. As músicas vieram de fins de tarde conturbados no meio do trânsito, reflexões sobre Deus, leituras de livros incômodos e outras coisas normais da vida.
RR: Vocês trabalharam com profissionais internacionalmente conceituados como Victor Rice e Joe Lambert, na mixagem e masterização respectivamente. Como foi essa experiência?
IF: A experiência foi a melhor possível. Mas não no sentido clássico de “ir lá e ver o cara trabalhando”. O que me deixou particularmente feliz foi a interação, a participação artística deles. Como gostaram do trabalho, se sentiram livres pra dar um toque pessoal, retrabalhar algum conceito inacabado e dar a liga nas faixas. Quando os profissionais de pós-produção também sentem esse vínculo com o trabalho, acho que tudo melhora e o disco ganha uma força diferenciada. O som fica mais minucioso, mais profundo. Acabou que fizemos uma grande amizade. Saíamos muito juntos durante o processo, pra conversar sobre outras coisas que não música. Acho isso fundamental, porque é só convivendo junto com a pessoa que um estranho é capaz de compreender a real intenção por trás da música. O entendimento dessas questões pessoais, triviais, ajuda muito a ganharmos intimidade e pensarmos com menos distração no momento de mixar ou masterizar. Pra mim ficou meio que uma dica: se você vai mixar com um cara que você admira, nos momentos que você não tiver na frente da mesa de mixagem, fale sobre outras coisas, não só sobre música. A música é só o reflexo dessas experiências.
RR: Quando começaram com a Malbec em 2009, imaginavam finalizar um álbum com o auxilio de profissionais como eles? Foi surreal?
IF: Eu sempre imaginei trabalhar com gente que faz música que eu admiro. Uma coisa que aprendi também é que não existe mágica em música: a música que você grava é 95% a mesma música que vai estar no seu disco final, então a questão técnica importa pouco: a beleza do material nasce com ele e morre com ele. Mas trabalhar com eles foi uma dádiva que eu não imaginava ter tão cedo, visto que, por morar tão longe e por viver num país que não apóia música não-mainstream, os custos são altos. Finalmente tivemos a condição de fazer o trabalho com quem queríamos, até bem cedo na nossa carreira, e isso nos deixou muito satisfeitos. E sim, estar do lado desses caras, vendo eles trabalharem, é surreal. Tanto pela qualidade das decisões quanto pela rapidez com que se chega nos resultados. Pra gente tão experiente como eles, o processo é muito intuitivo, e, por isso, o fator humano transparece no resultado final. As “falhas” musicais são mantidas porque o humano é falho. No entanto, os clímaxes musicais também são mantidos porque o humano é capaz disso, e o trabalho desses caras é preservar essa verdade intrínseca do trabalho.
RR: A Malbec vai lançar Paranormal Songs gratuitamente em formato digital. O que levou vocês a essa decisão? Quais os planos para as mídias físicas?
IF: A idéia é ser coerente com o que tem acontecido nesse mundo. Eu sou assim, particularmente. Adoro ter o disco físico, mas normalmente procuro conhecer o trabalho antes de consumí-lo. Vamos lançar virtualmente pra dar a chance das pessoas ouvirem em ótima qualidade antes de decidirem se querem comprar o álbum. O lançamento físico acontece entre o fim de Junho e o início de Julho, em CD e em Vinil. A MP3 é gratuita porque não faz sentido ser paga, afinal eu nunca me encontrei numa situação em que quisesse ouvir algo em MP3 que não tivesse acesso e a banda imaginar que é capaz de controlar isso é pura ingeuidade.
RR: Há muitos detalhes e experimentações na música de vocês, além do notável som “quente” que transparece mais em disco de vinil.
IF: A vontade de ter o disco em vinil faz parte dessa percepção de que, especialmente no caso desse disco, os sons são quentes, e apesar de algumas faixas terem inserções eletrônicas, o som tem, majoritariamente, um live feeling. Pra isso, o vinil é demais, ajuda a arredondas transientes e a transparecer esses graves profundos, naturais da performance. Lógico que a arte gráfica também vira um mimo pro ouvinte, e isso faz parte da experiência de audição.
RR: Acredito que a faixa Machine Time vai ganhar uma cor a mais no formato vinil. Considera a música mais experimental do disco?
IF: Pode ser que sim. Ao mesmo tempo que ela tem o “formato” menos convencional, a estrutura harmônica é extremamente simples. Esse balanço eu acho fundamental. O Victor Rice falava muito sobre isso enquanto mixávamos. Outras faixas, como Paranormal Song, também têm esse clima sem rumo do que você, eu imagino, esteja considerando experimental. E sim, acho que, no vinil, Machine Time vai ganhar uma cor diferente dos formatos digitais.
RR: Vocês fizeram poucos shows aqui em Manaus durante o processo de gravação do disco, todos bastante intimistas. Daqui pra frente pretendem fazer com qual frequencia? Quais os planos de tocar em outros lugares do Brasil?
IF: Tudo depende da resposta do público. Espero que a gente tenha a chance, sim, de tocar em muitos lugares. Estamos imaginando uma pequena turnê sudeste pro segundo semestre de 2012, mas por enquanto é só plano. Em Manaus eu imagino que vamos tocar um bocado nesse ano, já com o show voltado pra esse disco. Tudo depende da repercussão do disco, e sobre isso não temos muito controle. Onde quiserem a gente, estaremos lá!
RR: Todos os membros trabalham e/ou estudam paralelamente à Malbec. A banda já é uma prioridade na vida de vocês?
IF: Cara, música independente é um animal estranho, no Brasil. Estamos completamente focados numa possível carreira musical, que é o que queremos fazer pro resto da vida. Pra isso acontecer, é preciso que tenhamos condição de continuar fazendo música exclusivamente. A banda é prioridade na nossa vida, e temos um sentimento forte de que precisamos continuar. Espero que possamos, e, mesmo que as coisas não aconteçam do jeito que esperamos, provavelmente nunca vamos deixar de fazer arte, enquanto pudermos.









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