Reviews#21 – A Boa Sorte de Solano Dominguez (Wander Antunes/Mozart Couto)
Dois brasileiros contam uma história quente, envolvente e amoral na luxuriosa Cuba pré-Fidel Castro.
Se você entrar numa livraria ou loja especializada e encontrar esta HQ, vá sem cerimônias direto à contra-capa. Lá você encontra um pequeno texto magnífico de Ruy Castro que serve como a perfeita introdução/resenha. Só ao ler esse texto, numa livraria, que finalmente tive coragem de comprá-la, depois de dois anos de namoro à distância. Para quem não pode ler o texto citado, fica aqui minha redundante review.
O ano é 1953, o lugar é Havana, a capital cubana mais conhecida como um balneário caribenho para o deleite dos americanos mais afortunados, que lá encontravam diversão, jogos, sexo e tudo o mais que fosse ligeiramente proibido ou visto com maus olhos na América do Norte. O Sexo, sim, era o principal chamativo, sendo a prostituição o trabalho mais lucrativo e sem qualquer fiscalização ou proibição. Em A Boa Sorte de Solano Dominguez, como bem observa Ruy Castro, não há o menor vestígio de moral, decência ou escrúpulos. Todos são corruptos, corruptores ou ambos. No olho do furacão está Solano Dominguez, possivelmente o personagem mais amoral com o qual me deparei nas histórias em quadrinhos.
Solano é marido e cafetão de Maria Dominguez, a meretriz mais conhecida e bem paga da ilha. Solano não trabalha e está sempre muito bem vestido nos cassinos da cidade. É dela que vem toda a sua renda. Homem de sorte. Mas sua saga, como aqui contada, se inicia dois meses depois que a sua mulher (e sua renda) já não fazem mais parte de sua vida, Solano só tem a bebida e as suas dívidas como companhia. Essas mesmas dívidas, ao que tudo indica, lhe colocarão num túmulo em muito pouco tempo. É neste momento que sua filha, Lolita, volta para a cidade, devolvida do colégio de freiras, por falta de pagamento. E Solano vê nela o seu pote de ouro.
Apesar de parecer uma HQ erótica como as Carlos Zéfiro (embora a influência certamente está lá), o grafismo de A Boa Sorte de Solano Dominguez se mantém apenas (bastante) sensual, pois a verdadeira depravidão está em sua história, um conto amoral e lascivo como os de Nelson Rodrigues, um texto na medida para um filme de Almodóvar. A capa de Odyr (o desenhista de Copacabana) expressa muito bem o clima da ilha de Havana durante toda a história, com todos os cidadões de olho em Solano e Lolita.
Não só é interessante notar como um autor e um desenhista brasileiros criaram uma história que se passa em Havana (e não seria impossível de se localizar no Rio de Janeiro, por exemplo), com é também notar que são artistas que, antes de receber o reconhecimento devido por aqui, ergueram carreiras de muito respeito e prêmios no concorrido mercado europeu. Apesar do roteiro simples e enxuto, em 48 páginas, Wander Antunes e Mozart Couto fazem uma viagem histórica e criam tesão, repulsa e ansiedade, enquanto esperamos pelo desfecho de Lolita e Solano Dominguez. Como diz Ruy Castro (mais uma vez), que venha a continuação desta história.
EDITORA DESIDERATA APRESENTA: A BOA SORTE DE SOLANO DOMINGUEZ
FORMATO: 21cm x 28cm
PÁGINAS: 52 páginas em P&B
PREÇO: R$14,90 (em promoção)
TEXTO: Wander Antunes
ARTE: Mozart Couto










Muito boa review! Esse Solano… ele prostitui a filha? Cacildis!
=D que foda hein… eu realmente adoro detalhes de personagens típicos… e a mulher tah super bem desenhada!
obs.: no primeiro quadrinho do post, o carinha logo abaixo do balão que diz “dios!!” é igualzinho o madrugo ontem na festa hauhauhauahauhauha
soh pra constar