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Jean Giraud foi um dos maiores e mais influentes artistas da arte sequencial em todo o mundo. Falecido – ou transportado para um novo plano astral, como ele preferiria – em março de 2012, não precisa de muitas apresentações. Mas como grande parte de seu trabalho ficou por anos num limbo editorial nacional, não custa nada relembrar nossos leitores do mestre/monstro que assinava suas HQs mais fantasiosas e científicas como Moebius. Logo que a notícia chegou à mídia, falou-se muito de suas colaborações com artes conceituais e character design para filmes como Alien (de Ridley Scott), Tron (de Steven Lisberger), O Quinto Elemento (de Luc Besson) e uma versão abortada de Duna, que seria dirigida por Alejandro Jodorowski (seu grande parceiro), mas é para suas obras em quadrinhos que você deve voltar sua atenção.
Apesar de ter começado sua carreira desenhando westerns e ter se firmado como artista na série Blueberry – de imensa popularidade na França, sua terra natal – foi na ficção científica que Moebius desbravou territórios e construiu sua própria identidade visual e narrativa. Tudo isso potencializado pela publicação da revista Metal Hurlant, uma antologia de quadrinhistas europeus que ajudou a fundar, onde se explorava temas como religião, sexo, drogas e o futuro sem o menor pudor. A revista virou animação e ganhou edições internacionais – como Heavy Metal – transformando o artista em sensação/obsessão/referência para qualquer garoto com nanquim na mão dos anos 70 até hoje.
De suas obras mais importantes, talvez O Homem é Bom? seja a melhor introdução ao seu trabalho. Essa coleção de 6 historietas curtas mostra não só a gênese de seu trabalho na ficção científica com a sarcástica história-título, mas também as várias facetas de um desenhista experimentando e explorando seu traço, o design das páginas e, principalmente, com a narrativa.
Logo no texto de apresentação, Moebius lamenta o desfecho dado à maioria das história, sempre levando para o humor negro ou simplesmente para o pessimismo deslavado, fosse por influência de seu modo de vida na época ou pelos deadlines para entregar quantas páginas pudesse produzir aos editores. Mesmo que realmente pareçam interrompidas prematuramente, das narrativas mais simples, como as duas páginas de Dupla Evasão, às mais elaboradas como Cidadela Cega, é possível ter um vislumbre da psique do autor e entender como a humanidade criou nele uma grande desilusão e como esse sentimento reflete em toda a sua obra de maneira poética e irracional.
O destaque, claro, está na sessão dedicada às duas partes de The Long Goodbye, considerada por muitos desenhistas e escritores como a invenção do cyberpunk, além de servir como marco zero para a concepção visual do clássico filme Blade Runner (também de Ridley Scott). Escrita por Dan O’Brian – durante a já citada produção do filme Duna – trata-se de uma reimaginação futurística das histórias policiais de clássicos autores pulp como Raymond Chandler e Dashiell Hammett .
Se pudesse apontar um único ponto negativo na publicação, seria o letramento careta que destoa visualmente de tudo o que você está vendo nas páginas. A Editora Nemo vem fazendo um grande serviço aos fãs de quadrinhos com cada novo lançamento de sua Coleção Moebius. Álbums bem editados, no formato original e com qualidade de material e de impressão. Negar esse livro à sua prateleira não é um erro que você queira cometer.
EDITORA NEMO APRESENTA: O HOMEM É BOM?
FORMATO: 24 x 32 cm
PÁGINAS: 56 páginas cores
PREÇO: R$49,00
TEXTO e ARTE: Moebius, Dan O’Brian
TRADUÇÃO: Fernando Scheibe



















