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“Não como daquela vez, algum tempo mais tarde… Quando, numa madrugada, um sonho perturbador força a menininha a sair de seu quarto para procurar o reconforto que sua mãe costumava lhe oferecer em casos parecidos. Foi violento encontra-la no corredor, sentada sobre um banquinho. Seu pai em uma posição que demonstrava para a pequena, sem que ela soubesse o porquê, mas de forma exata, que ele não lhe pertencia mais.”
Sinopse: Lucille é uma jovem insatisfeita com seu corpo, sua casa, sua falta de amigos, seu relacionamento com a mãe e sua vida toda. Não parece haver coisa alguma que a faça feliz. Arthur é filho de um pescador e parece não ter muitas perspectivas na vida além de seguir os passos de seu pai. Mas, de alguma forma, as tragédias pessoais dos dois jovens os levam para um mesmo lugar.
Lançado em outubro de 2011, Lucille veio para o Brasil já como vencedor. Desde a capa já temos um belo adesivo com a informação: “Prêmios 2006-2007 René Goscinny Angoulême” e juntando isso com uma arte de capa incrível, não há muitos argumentos que nos impeça de folhear e adquirir esse exemplar de 544 páginas da obra de Ludovic Debeurme.
Já tem algum tempo que percebi uma rotina nos meus gostos por quadrinhos. Simplesmente me coloque em frente a algum quadrinho com uma quantidade generosa de páginas, junte isso a uma arte simples e monocromática por dentro e tons pasteis de capa e como um passe de mágica me verá saindo com posse de um dos exemplares da loja.
Aconteceu isso com Umbigo sem Fundo, com Retalhos, com Habibi, com Cicatrizes e algumas dezenas de outros mais. Não sei bem o motivo, mas acho incrível a habilidade que alguns quadrinistas tem em se expressar de forma simples, mas ainda sim tão profunda. Ok, talvez Retalhos e Habibi do Craig Thompson não sejam o tipo de arte que podemos chamar de simples. Mas, de modo geral, acho que deu para me entender.
Nesse ponto de qualidade artística, Lucille ganha milhares de louvores, visto a habilidade de seu autor e o conceito utilizado nessa obra. De forma incrível, Debeurme nos mostra duas facetas opostas em diversos pontos da obra. Seja no caráter simplista de sua expressão gráfica em oposição à profundidade dramática que seus dois personagens vivem, seja na virada rápida das páginas em oposição à vida monótona dos personagens ou na liberdade espacial do quadrinho sem quadros à reclusão e depressão solitária da história. Cabe aqui um espaço para citar o filme Elephant de 2003 do Gus Van Sant como um exemplo em diferente mídia daquilo que gostaria de expressar.
Aqui temos a perspectiva de dois jovens personagens que levam o drama existencial adolescente a níveis épicos Shakespearianos, o que me da certo alívio em olhar para trás e me sentir vitorioso por ter passado por aquela época sem traumas ou sequer metade daqueles problemas. Lucille e Arthur são retratados como um extremo exemplo dos que são afastados do meio “social comum” por serem diferentes ou estranhos daqueles que são tão estranhos quanto, porém conseguem reprimir ou esconder essas diferenças em busca de uma aceitação e inserção nesse meio. A expectativa que se cria dos acontecimentos e a reviravolta final da obra são obras primas e de total mérito do autor.
Da mesma forma que se manteve, Debeurme coloca o ritmo constante em sua narrativa até finalizar com uma singela frase: “Ludovic Debeurme, dez.2005 – Fim da primeira parte” encerrando aqui uma das histórias mais comoventes que tive a oportunidade de ler em todos esses anos. A simplicidade, devo ter repetido essa palavra diversas vezes nessa resenha, e a humildade com que ele apresenta a história me cativou com sinceridade e me deixa ansioso pela segunda parte ainda sem previsão de lançamento no Brasil, mas que já foi lançado na França em 2011 com o nome de Renée e torço para que a LeYa / Barba Negra tenha a mesma disposição em nos trazer essa obra com a mesma qualidade e simplicidade da primeira. Uma grande salva de palmas para todos os envolvidos por que eles, com absoluta certeza, merecem.
FORMATO: 22,5 x 17 cm
PÁGINAS: 544 páginas em P&B
PREÇO: R$54,90
AUTOR: Ludovic Debeurme
EDITORA: LeYa / Barba Negra
LANÇAMENTO: 2005 (França) / 2011 (Brasil)



















































