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Reviews#127 – Lucille (Ludovic Debeurme)

Publicado por na categoria Destaque, Reviews em October 24th, 2012

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“Não como daquela vez, algum tempo mais tarde… Quando, numa madrugada, um sonho perturbador força a menininha a sair de seu quarto para procurar o reconforto que sua mãe costumava lhe oferecer em casos parecidos. Foi violento encontra-la no corredor, sentada sobre um banquinho. Seu pai em uma posição que demonstrava para a pequena, sem que ela soubesse o porquê, mas de forma exata, que ele não lhe pertencia mais.”

Sinopse: Lucille é uma jovem insatisfeita com seu corpo, sua casa, sua falta de amigos, seu relacionamento com a mãe e sua vida toda. Não parece haver coisa alguma que a faça feliz. Arthur é filho de um pescador e parece não ter muitas perspectivas na vida além de seguir os passos de seu pai. Mas, de alguma forma, as tragédias pessoais dos dois jovens os levam para um mesmo lugar.

Lançado em outubro de 2011, Lucille veio para o Brasil já como vencedor. Desde a capa já temos um belo adesivo com a informação: “Prêmios 2006-2007 René Goscinny Angoulême” e juntando isso com uma arte de capa incrível, não há muitos argumentos que nos impeça de folhear e adquirir esse exemplar de 544 páginas da obra de Ludovic Debeurme.

Já tem algum tempo que percebi uma rotina nos meus gostos por quadrinhos. Simplesmente me coloque em frente a algum quadrinho com uma quantidade generosa de páginas, junte isso a uma arte simples e monocromática por dentro e tons pasteis de capa e como um passe de mágica me verá saindo com posse de um dos exemplares da loja.

Aconteceu isso com Umbigo sem Fundo, com Retalhos, com Habibi, com Cicatrizes e algumas dezenas de outros mais. Não sei bem o motivo, mas acho incrível a habilidade que alguns quadrinistas tem em se expressar de forma simples, mas ainda sim tão profunda. Ok, talvez Retalhos e Habibi do Craig Thompson não sejam o tipo de arte que podemos chamar de simples. Mas, de modo geral, acho que deu para me entender.

Nesse ponto de qualidade artística, Lucille ganha milhares de louvores, visto a habilidade de seu autor e o conceito utilizado nessa obra. De forma incrível, Debeurme nos mostra duas facetas opostas em diversos pontos da obra. Seja no caráter simplista de sua expressão gráfica em oposição à profundidade dramática que seus dois personagens vivem, seja na virada rápida das páginas em oposição à vida monótona dos personagens ou na liberdade espacial do quadrinho sem quadros à reclusão e depressão solitária da história. Cabe aqui um espaço para citar o filme Elephant de 2003 do Gus Van Sant como um exemplo em diferente mídia daquilo que gostaria de expressar.

Aqui temos a perspectiva de dois jovens personagens que levam o drama existencial adolescente a níveis épicos Shakespearianos, o que me da certo alívio em olhar para trás e me sentir vitorioso por ter passado por aquela época sem traumas ou sequer metade daqueles problemas. Lucille e Arthur são retratados como um extremo exemplo dos que são afastados do meio “social comum” por serem diferentes ou estranhos daqueles que são tão estranhos quanto, porém conseguem reprimir ou esconder essas diferenças em busca de uma aceitação e inserção nesse meio. A expectativa que se cria dos acontecimentos e a reviravolta final da obra são obras primas e de total mérito do autor.

Da mesma forma que se manteve, Debeurme coloca o ritmo constante em sua narrativa até finalizar com uma singela frase: “Ludovic Debeurme, dez.2005 – Fim da primeira parte” encerrando aqui uma das histórias mais comoventes que tive a oportunidade de ler em todos esses anos. A simplicidade, devo ter repetido essa palavra diversas vezes nessa resenha, e a humildade com que ele apresenta a história me cativou com sinceridade e me deixa ansioso pela segunda parte ainda sem previsão de lançamento no Brasil, mas que já foi lançado na França em 2011 com o nome de Renée e torço para que a LeYa / Barba Negra tenha a mesma disposição em nos trazer essa obra com a mesma qualidade e simplicidade da primeira. Uma grande salva de palmas para todos os envolvidos por que eles, com absoluta certeza, merecem.

 

FORMATO: 22,5 x 17 cm

PÁGINAS: 544 páginas em P&B

PREÇO: R$54,90

AUTOR: Ludovic Debeurme 

EDITORA: LeYa / Barba Negra

LANÇAMENTO: 2005 (França) / 2011 (Brasil)

Reviews#122 – Habibi (Craig Thompson)

Publicado por na categoria Reviews em October 5th, 2012

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Ironicamente falando, um dos autores de maiores sucessos da década passada nunca esteve presente pelo PulaPirata. Essa review de Habibi vem para, entre outras coisas, fazer jus a esse autor. Craig Thompson.

Talvez algumas pessoas não concordem de eu elencar esse autor como um dos de maiores sucessos haja vista que o mesmo só tem quatro publicações feitas até hoje (incluindo ai Habibi). Mas não tem como não falar que em 2004, ano que ele lançou Retalhos (não há review ainda, mas corrigirei este erro num futuro próximo), foi o grande ano de sua vida profissional. Digo isso pela quantidade de prêmios que essa obra recebeu naquele ano, deixando uma penca de fãs e críticos a espera de um grande trabalho desde então. Essa espera foi longa, sete anos, mas acabou e hoje podemos nos deliciar com Habibi, uma das melhores leituras do ano sem dúvida alguma.

Vamos à sinopse: “…saga de dois escravos fugitivos, unidos e separados pelo destino, vivendo no limite que separa a tradição da descoberta. Dodola, uma garota perspicaz e independente, foge de seus captores levando consigo um bebê. Eles crescem juntos no deserto, sozinhos em um navio naufragado na areia. Em meio a sentimentos cada vez mais conflitantes, os dois passam o tempo contando histórias. Assim, somos apresentados também à origem do islamismo e de suas tradições, conforme as narrativas se combinam numa trama de aventura, romance, filosofia e tragédia. Para contar a saga de Dodola e Zam, Craig Thompson recorreu ao Corão e às Mil e uma noites…”

Como podemos ver, o islamismo é bem presente nessa HQ. Não li todos os trabalhos de Thompson, mas posso dizer que em Retalhos ele sempre tem como um dos temas principais a religião. Poderia eu estar sendo injusto em dizer que o ponto mais forte de Thompson seja seu traço, muitas vezes psicodélico, a ponto de se tornar muito complicado de compreender, e sincero. Aqui não há nada desnecessário ao mesmo tempo que não há nada econômico. Em especial nessa obra, posso afirmar sem medo que a qualidade justifica a demora da publicação não só pelo traço, mas por toda a pesquisa feita pelo autor sobre a religião islâmica (mais detalhes no final do livro). Saindo desse devaneio digo injusto devido ao cuidado absurdo de roteiro e desenvolvimento de personagens que ele é faz. A intimidade que conhecemos os personagens é tamanha e nos deixa tão próximos de seus pensamentos, vontades, desejos, histórias, que sempre termino sua obra quase que criando novos amigos.

Nesta HQ, Thompson nos apresenta Dodola, criança viúva em um país islâmico, e Zam, uma criança negra escrava desde o nascimento, duas “criaturas” completamente subjulgadas e oprimidas pela realidade em que vivem que conseguem fugir de onde vieram e passaram a sobreviver juntos, em um barco encalhado no deserto. Dodola na época com 14 anos e Zam com 6, salvo algum engano, acabam estabelecendo uma relação de mãe e filho onde Dodola se esforça frequentemente em busca de alimento para os dois enquanto ensina seu “filho” contando histórias e mais histórias.

É muito fácil criar um paralelo com “Mil e Uma Noites” para essa HQ. Todas as histórias são retiradas do Corão e no decorrer das histórias as duas personagens criam uma semelhança muito interessante, mas sem retirar a  liberdade poética do autor para adequa-la a sua realidade. Apesar da vontade, falar muito mais sobre a história em sí pode acabar dando spoilers desnecessários para essa resenha.

Existe um ponto negativo nessa obra que talvez seja a responsável por eu não coloca-la no mesmo patamar de Retalhos e algumas outras obras. Além da narrativa caótica, não consigo começar aquela história sem imaginar se passar em uma época muito antiga, como 400 anos atrás. Não por algum preconceito existente, mas pela contextualização que é mostrada. Porém somos surpreendidos frequentemente com alguns diálogos que mostram que na verdade estamos em época muito mais próxima da atual. Relógios, mecanismos, represas, arranha céus e outras coisas aparecem de forma abrupta e não acharia estranho no final se o Ronaldinho não passasse por ali jogando bola. A tradução também pecou em algumas gírias na versão nacional. Acredito que a versão original não de esse mesmo sentimento.

Particularmente falando, mesmo com esse ponto negativo é fácil recomendar essa obra. Para muitos não conhecedores de HQ, que imaginam existir histórias só de super heróis ou infatis, Habibi pode se tornar um grande tapa na cara sendo muito mais profundo, emocionante e impactante que qualquer obra de outra mídia. A edição nacional foi lançada pela Companhia das Letras, como sempre com ótima qualidade.

 

AUTORES: Craig Thompson

TRADUÇÃO: Érico Assis

ILUSTRAÇÕES: Craig Thompson

FORMATO: 18,3 x 23 

PÁGINAS: 672

ANO DO LANÇAMENTO: 2012 (Brasil) / 2011 (EUA)

I.S.B.N.: 9788535921311

Reviews#108 – Fracasso de Público – Desencontro de Titãs (Alex Robinson)

Publicado por na categoria Reviews em May 18th, 2012

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- Quando olho na direção do Professor Pekar, e percebo que ele me convocou para uma irmandade que não pode ser descrita em palavras. Agora entendo porque ele fazia isto e porque deve ter sido doloroso pra ele desistir de fazê-lo. Estou feliz em ser o Papai Noel. Neste ano, pelo menos. Então olho para Courtney e é como uma marreta batendo no meu peito… Ela não acredita mais. Não é a minha atuação… Por que não estou atuando. Eu SOU o Papai Noel… Mas, pela primeira vez, ela percebe a verdade. Sinto uma pontada de tristeza… Algo raro e precioso se perdeu para sempre.

Sinopse: O desenhista Ed se vê frente a uma terrível tentação que pode corromper sua alma. A luta do veterano Irving Flavor contra a Zoom Comics para recuperar seu personagem, o Nightstalker, ganha repercussão. O complicado namoro de Sherman e Dorothy leva um escorregão no gelo. Stephen e Jane enfrentam os seres mais desagradáveis do mundo: os vizinhos. E uma morte inesperada pode mudar o destino de todos!

Não tenho como mentir e dizer que odeio trilogias. Na verdade as adoro! Mas também não seria sincero eu dizer que aceito sem desconfiar qualquer coisa. É muito comum o segundo livro ser uma grande frustração em diversos níveis. Criamos uma expectativa de que tudo o que tivemos de dúvidas ou curiosidades no primeiro livro será resolvido, mas, na verdade, só sofrem um acréscimo em mais dúvidas e mais curiosidades, sempre deixando todos os desfechos e conclusões para o final. Foi dessa forma, novamente, que me senti quando esse maravilhoso trabalho de Alex Robinson foi publicado no Brasil pela editora Gal e separado em três volumes.

Não conhecia anteriormente esse trabalho, e, na época, a nova editora do mercado ainda mais parecia uma criança engatinhando. Em todo caso, alguns poucos jogos de palavras como “melhor HQ independente de todos os tempos” me chamaram bastante atenção, além de ter chegado para mim quase que na mesma época que dois grandes gigantes, Umbigo sem Fundo e Retalhos, que, apesar de serem muito diferentes, podem ser levemente comparados em alguns quesitos.

Mas eis que me surpreendo… Depois de Heróis Mascarados e Amigos Encrencados, chega o segundo volume dessa saga: Desencontro de Titãs. Devo dizer que depois de ficar maravilhado com o primeiro volume (leia a resenha aqui), fui decido ler o segundo volume procurando erros e motivos para criticar com toda a raiva que pude acumular. Me senti verdadeiramente frustrado.

É aqui que quebra a barreira de um humilde resenhista e ele começa a babar loucamente por um trabalho. Fracasso de Público: Desencontro de Titãs é simplesmente SENSACIONAL! Não há palavras para serem acrescidas nessa resenha que já não foram ditas e repetidas constantemente.

Desencontro de Titãs não só surpreendeu a mim como a praticamente todo o mercado brasileiro. Com sinceridade, não havia visto, até aquele momento, tanta movimentação em torno de uma HQ que não fosse de super heróis, na imprensa do país, seja a de mídia impressa ou digital. Colecionando uma série de prêmios internacionais como Eisner e o Gran Prix no Festival de Angôuleme, Fracasso de Público conseguiu uma respeitável posição entre os melhores quadrinhos dos últimos anos (não o volume 2 em si, mas a obra completa).

A grande capacidade que Robinson tem de contar uma história rompe qualquer barreira limitadora que possa existir em um quadrinho. Mesclando de passagens dramáticas às passagens cômicas, todas as cenas, diálogos e fotografias casam quase que milimetricamente umas nas outras, dando um ritmo excelente sem perda de tempo. A grande sacada do volume 1 em contar uma história de personagens comuns, como eu e você, em suas vidas comuns, como a minha e a sua, com seus problemas comuns, como os nossos, se repete brilhantemente dando um carisma excepcional para cada um dos personagens, criando um vinculo de bastidores onde novamente nos pegamos sentindo a mesma raiva, tristeza, amor, alegria e dúvidas que os personagens sentem no decorrer de suas vidas.

Fracasso de Público: Desencontro de Titãs não só é uma excelente pedida como é dever de qualquer leitor de quadrinhos possuir em sua coleção. Deve inclusive fazer parte dos asteriscos do contrato de “leitor de quadrinhos” que possuímos e deve estar em letras garrafais e amigáveis como um Guia de Mochileiro das Galáxias bem no meio da seção “deveres e obrigações”.

Se tiver dúvida do que dar de presente para alguma pessoa, você é besta.

Titulo: FRACASSO DE PÚBLICO – DESENCONTRO DE TITÃS

Editora: GAL EDITORA

Autor: ALEX ROBINSON – ROTEIRO E ARTE (PUBLICADO ORIGINALMENTE EM “OFFICE BOX POISON)

Preço: R$ 38,00

Número de Páginas: 188

Data de Lançamento: MAIO 2010





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