Reviews#127 – Lucille (Ludovic Debeurme)

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“Não como daquela vez, algum tempo mais tarde… Quando, numa madrugada, um sonho perturbador força a menininha a sair de seu quarto para procurar o reconforto que sua mãe costumava lhe oferecer em casos parecidos. Foi violento encontra-la no corredor, sentada sobre um banquinho. Seu pai em uma posição que demonstrava para a pequena, sem que ela soubesse o porquê, mas de forma exata, que ele não lhe pertencia mais.”

Sinopse: Lucille é uma jovem insatisfeita com seu corpo, sua casa, sua falta de amigos, seu relacionamento com a mãe e sua vida toda. Não parece haver coisa alguma que a faça feliz. Arthur é filho de um pescador e parece não ter muitas perspectivas na vida além de seguir os passos de seu pai. Mas, de alguma forma, as tragédias pessoais dos dois jovens os levam para um mesmo lugar.

Lançado em outubro de 2011, Lucille veio para o Brasil já como vencedor. Desde a capa já temos um belo adesivo com a informação: “Prêmios 2006-2007 René Goscinny Angoulême” e juntando isso com uma arte de capa incrível, não há muitos argumentos que nos impeça de folhear e adquirir esse exemplar de 544 páginas da obra de Ludovic Debeurme.

Já tem algum tempo que percebi uma rotina nos meus gostos por quadrinhos. Simplesmente me coloque em frente a algum quadrinho com uma quantidade generosa de páginas, junte isso a uma arte simples e monocromática por dentro e tons pasteis de capa e como um passe de mágica me verá saindo com posse de um dos exemplares da loja.

Aconteceu isso com Umbigo sem Fundo, com Retalhos, com Habibi, com Cicatrizes e algumas dezenas de outros mais. Não sei bem o motivo, mas acho incrível a habilidade que alguns quadrinistas tem em se expressar de forma simples, mas ainda sim tão profunda. Ok, talvez Retalhos e Habibi do Craig Thompson não sejam o tipo de arte que podemos chamar de simples. Mas, de modo geral, acho que deu para me entender.

Nesse ponto de qualidade artística, Lucille ganha milhares de louvores, visto a habilidade de seu autor e o conceito utilizado nessa obra. De forma incrível, Debeurme nos mostra duas facetas opostas em diversos pontos da obra. Seja no caráter simplista de sua expressão gráfica em oposição à profundidade dramática que seus dois personagens vivem, seja na virada rápida das páginas em oposição à vida monótona dos personagens ou na liberdade espacial do quadrinho sem quadros à reclusão e depressão solitária da história. Cabe aqui um espaço para citar o filme Elephant de 2003 do Gus Van Sant como um exemplo em diferente mídia daquilo que gostaria de expressar.

Aqui temos a perspectiva de dois jovens personagens que levam o drama existencial adolescente a níveis épicos Shakespearianos, o que me da certo alívio em olhar para trás e me sentir vitorioso por ter passado por aquela época sem traumas ou sequer metade daqueles problemas. Lucille e Arthur são retratados como um extremo exemplo dos que são afastados do meio “social comum” por serem diferentes ou estranhos daqueles que são tão estranhos quanto, porém conseguem reprimir ou esconder essas diferenças em busca de uma aceitação e inserção nesse meio. A expectativa que se cria dos acontecimentos e a reviravolta final da obra são obras primas e de total mérito do autor.

Da mesma forma que se manteve, Debeurme coloca o ritmo constante em sua narrativa até finalizar com uma singela frase: “Ludovic Debeurme, dez.2005 – Fim da primeira parte” encerrando aqui uma das histórias mais comoventes que tive a oportunidade de ler em todos esses anos. A simplicidade, devo ter repetido essa palavra diversas vezes nessa resenha, e a humildade com que ele apresenta a história me cativou com sinceridade e me deixa ansioso pela segunda parte ainda sem previsão de lançamento no Brasil, mas que já foi lançado na França em 2011 com o nome de Renée e torço para que a LeYa / Barba Negra tenha a mesma disposição em nos trazer essa obra com a mesma qualidade e simplicidade da primeira. Uma grande salva de palmas para todos os envolvidos por que eles, com absoluta certeza, merecem.

 

FORMATO: 22,5 x 17 cm

PÁGINAS: 544 páginas em P&B

PREÇO: R$54,90

AUTOR: Ludovic Debeurme 

EDITORA: LeYa / Barba Negra

LANÇAMENTO: 2005 (França) / 2011 (Brasil)

Reviews#125 – Plexo Holístico / Alvoroço (Diego Gerlach)

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O trabalho do Gerlach apareceu pela primeira vez (pelo menos pra mim) durante a Rio Comicon de 2010 com seu Ano do Bumerangue, uma história pirata do famoso personagem Fantasma. O que à primeira vista parecia uma HQ de difícil digestão, se mostrou mais uma satisfatória evidência de uma recém descoberta da variedade estilística e narrativa de nossos quadrinhos independentes e/ou autorais. Seu traço pode ser troncho e tosco, mas é suplantado por um estilo formidável, enquadramentos instigantes e narrativas pouco convencionais que parecem ter mas lógica do que o seu usual nonsense.

Desde então, Gerlach tem se mostrado prolífico e proeminente, espalhando suas narrativas psicotrópicas por várias publicações. Em outubro de 2011, lançou seu número da Revista 1ØØØ, projeto dos selos Barba Negra e Cachalote. Com nas edições anteriores, Plexo Holístico nos traz uma história sem diálogos com pouco mais de 20 páginas. Aqui entramos diretamente num embate entre dois anti-heróis sobrenaturais que entram numa bizarra e bêbada peleja de rua, das mais corriqueiras pelos quatro cantos de Pinacoderal, o universo ficcional onde habitam a maior parte de seus personagens e suas histórias encharcadas de suor.

E faz todo sentido que Holismo seja o nome dado à abordagem que defende o entendimento integral dos fenômenos, em que as propriedades de um sistema completo não podem ser explicadas apenas pela soma de seus componentes. A curta história é de uma simplicidade explosiva e impactante que foge das tanta elipses de AdB. É também o momento em que seu traço parece se distanciar mais dos fanzines punks e chegar à uma confortável identidade madura, sem perder a feiura que lhe dá o charme.

Já em setembro de 2012, o autor estreou seu próprio selo (Vibe Tronxa Comix) com seu mais recente trabalho, Alvoroço, que traz de volta o personagem mais emblemático de Pinacoderal, o ogro tabagista Boy Rochedo, que apareceu anteriormente nas páginas da Revista Prego #4, também em 2010. Alvoroço é nada mais do que um diálogo entre a malandragem e a sociopatia se derretendo a cada página, com seu malemolente linguajar coloquial que por vezes faz ri mas também pode parecer pretencioso demais pra ter melhor impacto.

Apesar de ser um gibi massa e muito bem acabado, com uma arte cada vez mais bem resolvida e surreal, sofre de alguns males comuns como a verborragia que nem sempre engaja o leitor (talvez resultado de uma escrita automática) e ser uma pequena parte de uma história maior e aparentemente excitante que está se desenrolando, mas sozinha parece apenas uma interessante parte do quebra-cabeças.

Tentar decifrar cada quadro das histórias de Gerlach pode ser um desafio, mas ele parece jogar numa mesma panela de pressão os fumetti italianos, grafite e pixação das ruas, a paranóia da literatura de ficção científica pós K. Dick e uma visão totalmente desequilibrada de histórias de super heróis, adicionados de uma trilha sonora convulsiva, cheia de estática e uma opressivo calor que impregna todos os seus personagens e suas ações. Tem momentos soberbos e momentos em que é coisa demais para aguentar.

O melhor texto escrito sobre o trabalho, a estética e o traço de Diego Gerlach foi escrito pelo prórpio Diego Gerlach, e você que tem interesse (ou sente-se de alguma forma incomodado) por suas histórias em quadrinhos, deveria ler.

 

EDITORA BARBANEGRA E SELO CACHALOTE APRESENTAM: PLEXO HOLÍSTICO 

FORMATO: 21 x 30 cm
PÁGINAS: 22 páginas em P&A
PREÇO: R$15,00
ARTE: Diego Gerlach

 

VIBE TRONXA COMIX APRESENTA: ALVOROÇO 

FORMATO: 15 x 19 cm
PÁGINAS: 32 páginas em P&B
PREÇO: R$12,00 (com frete)
TEXTO e ARTE: Diego Gerlach

 

Reviews#98 – Koko Be Good (Jen Wang)

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Na literatura e – principalmente – no cinema, existe um artifício muito usado em histórias românticas apelidado de Manic Pixie Dream Girl, caracterizada pela mocinha maluquinha que aparece na vida do protagonista careta, fazendo-o exergar o mundo com outros olhos e salvando-o de uma existência insignificante [exemplos: Garden State, Tudo Acontece em Elizabethtown, Um Show de Vizinha]. É um artifício cada vez mas calejado e mal maquiado, mas que foi muito bem driblado pela quadrinista norte-americana Jen Wang.

Koko Be Good (agradeço aos editores por não tentarem traduzir o título) começa como uma dessas histórias. Jon Wilgur é um rapaz não muito interessante de vinte e poucos anos que acabou de se formar na faculdade e está prestes a se mudar para o Peru, onde sua namorada trabalha num orfanato e ele não tem muita idéia do que fazer. Koko é uma garota excêntrica, durona e mal ajustada que vive de favores e faz todo tipo de coisas pra descolar trocados. Quando os dois se encontram, antes da mudança, e começam uma relação de amizade (ou algo próximo disso), os esperados questionamentos e mudanças na vida do protagonistas se iniciam. Mas não só isso, nossa Manic Pixie Dream Girl da vez – a egocêntrica Koko – também é afetada por suas conversas com Jon e decide mudar de vida, deixar de importunar os outros e começar a fazer o bem para mundo. Um necessitado por vez.

Mas não é fácil ser boazinha – como entrega o subtítulo. Jen Wang – que é socióloga de formação e já passou por alguns empregos pouco gratificantes, como seus personagens – acaba compondo uma tese existencialista sobre os jovens americanos e suas perspectivas de vida após antes e após a faculdade. Mas estamos longe, muito longe de um drama ou até de uma história romântica. Enquanto vemos as trapalhadas em que se metem os protagonistas para fazer algo que, acham eles, os tornarão pessoas melhores, somos pegos desprevinidos com reflexões sobre nós mesmos e nosso papel no mundo. Afinal de contas, a quem estamos tentando impressionar?

A estupenda arte de Wang também ajuda bastante na qualidade do material. O traço do lápis com claras influências de mangás (algo cada vez mais frequente e com boa qualidade) encontra-se com referências européias na orgânica coloração em aquarela – nada de computadores aqui – que dão uma certa leveza e dinâmica à essa história de pouco mais de 300 páginas. Se tenho uma reclamação, é para o pouco espaço dado ao que parece ser um excelente personagem, o coadjuvante Faron.

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Koko Be Good é uma surpresa bastante agradável, principalmente para quem, como eu, nunca ouvira falar da autora. O roteiro, apesar de irregular em sua estrutura, traz uma grande força no diálogo, hora realista e angustiado, hora excêntrico e fantasioso.Só não entendi mesmo as comparações com a Mônica de Maurício de Souza.

EDITORA BARBA NEGRA E EDITORA LEYA APRESENTAM: KOKO BE GOOD

FORMATO
: 21,5 x 15,5 cm
PÁGINAS: 304 páginas em cores
PREÇO: R$39,90
TEXTO E ARTE: Jen Wang

Reviews#90 – Encruzilhada (Marcelo D'Salete)

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Tiremos logo o óbvio do caminho: Encruzilhada conta cinco breves histórias que se passam em São Paulo com seres humanos de carne e osso que nem sempre recebem o respeito que merecem, alguns bons, outros ruins. Bem ruins. O traço sujo e borrado é inspirado na arte do grafite e nas pixações que dominam a cidade – por que nessas histórias não existe espaço para nada bonitinho e maquiado. Os enquadramentos e passagens silenciosas vem de referências cinematográficas diversas; A edição da Barba Negra, com papel fosco preto e capa de papel Eco-Kraft reciclável, é de encher os olhos e te fazer correr para o caixa da livraria – mesmo.

Agora vamos ao que mais interessa: Como num bom filme, Marcelo d’Salete - artista plástico de formação – sabe que os diálogos são meros artifícios expositórios, as histórias estão mesmo nas imagens aparentemente banais, em camadas e sub-camadas de significância. O Carrefour, o McDonalds, a Sony e todos os outros logotipos espalhados pelas ruas, mas ao alcance de poucos afortunados, são antídotos para distrarir a população média de tudo que se vê nas ruas. Degradação, injustiça e pessoas a quem não querem sequer pousar o olhar, que diria dirigir a palavra. E nem é preciso ser pobre e/ou bandido. No entanto, não se trata de uma trabalho que coloca o dedo na ferida, apenas mostra o tamanho da infecção.

d’Salete viu algumas coisas pelas ruas de São Paulo, levou sua memória para casa e delas construiu histórias simples que não estão nem um pouco longe de realidades cruéis. E esse que é o seu maior mérito, no fim das contas, também é o que me deixou um levemente decepcionado. Depois de me afeiçoar ao o traço e à simplicidade da narrativa, ao final do livro fiquei com a sensação de que uma história mais complexa apareceria e daria um tiro de misericordia. Mas talvez essa fosse a intenção.

Apesar de opostas nas escolhas narrativas e nas intenções – a maior delas sendo a falta quase total de otimismo – Encruzilhada é meia-irmã de Morro da Favela, já que ambas se voltam para as pessoas que vivem à margem da sociedade de classe média, retratando um pouco de como vivem, o que tem de  bom e de ruim. Ambas fazem parte de uma recente bibliografia em quadrinhos que ajuda no árduo trabalho de propor discussão e inclusão.

EDITORA BARBA NEGRA E LEYA APRESENTAM: ENCRUZILHADA
FORMATO: 21 x 14 cm
PÁGINAS: 120 páginas em p&b
PREÇO: R$29,90 (em promoção)
TEXTO E ARTE: Marcelo d’Salete.
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Reviews#79 – Pequeno Pirata (David B.)

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Admito com certa vergonha que quase tudo o que tenho de referência sobre piratas são os filmes do Johnny Depp e os Contos do Cargueiro Negreiro – dentro de Watchmen, que inclusive faz uma brincadeira invertendo a importância do gênero com a dos Super Heróis naquela realidade alternativa. Histórias de piratas e toda a carga imagética ali contidas nunca atraíram muito minha atenção, talvez por culpa da minha predileção por ficção científica e fantasia.

É por isso que comecei a ler Pequeno Pirata sem saber muito bem o que esperar da história, mas com uma alta expectativa. É verdade que a arte e a coloração de David B. – autor do incessado Epiléptico, que ainda não li, mas sei que deveria  - são atmosféricas, sensacionais e brilham em meio a criaturas do mar, mortos que andam e grandes embarcações, mas ainda não tinha idéia do que esperar da adaptação de um conto de 1921 (Le Roi Rose, de Pierre Marc Olan), ano em que imagino que os Piratas ainda estavam na moda.

Logo nas primeiras páginas se percebe uma semelhança com Piratas do Caribe, afinal, tratam-se dos integrantes do lendário navio-fantasma Holandês Voador, que não podem morrer. Mas as semelhanças param por aqui. O Capitão Peter Maus, seu imediato Petit-Pierre são personagens permeados de nuances gráficas e psicológicas. Os dois e o resto dos marinheiros nutrem uma relação de amor e ódio com a vida, sempre à procura da inalcansável morte ou de algum tipo de boa ação que lhes dê um perdão divino, já que são todos ferverosamente temerários à Deus.

E é lá pelas páginas 13 e 14, quando tudo parece um quadro do Munch e os piratas estão numa tentativa frustrada de acabar com suas miseráveis existências, David B. me fisgou. Ná página 24, depois de decidir o que fazer com o que saquearam de um navio, tive a certeza de que devo procurar ler qualquer coisa do autor que aparecer pela minha frente. O pequeno pirata só dá as caras depois da metade do livro. Como? Isso vocês tem que descobrir por conta própria.

Na quadrégisima oitava e última página, fechei o livro feliz, sabendo que ainda não dou muita bola para histórias de piratas, mas que Pequeno Pirata é uma sombria e fascinante fábula infantil que lida com a morte de uma maneira única. Que deus nos proteja e ninguém deixe o Tim Burton saber da existência dessa HQ.

O livro, que eu achava curto, faz total uso de seu espaço e é bastante convidativo a novas releituras. Não é coincidência que a versão traduzida para o inglês foi indicada ao prêmio Eisner 2011 de melhor edição de livro estrangeiro.

BARBA NEGRA E LEYA ARESENTAM: PEQUENO PIRATA

FORMATO
: 20,5 x 27,5 cm
PÁGINAS: 48 páginas coloridas
PREÇO: R$29,90
TEXTO E ARTE: David B.
TRADUÇÃO: Maria Clara Carneiro

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Reviews#75 – Morro da Favela (André Diniz)

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Não preciso mais falar sobre a Barba Negra  - acho que já disse o bastante. Apesar de gostar da idéia de uma editora a qual vale a pena ser fiel, o que me fez correr atrás dessa HQ foi, ao mesmo tempo, curiosidade e a vontade de fazer jus ao material de seu autor, André Diniz. Ele já esteve por aqui antes, mas como roteirista da belíssima HQ curta Ato-5, em que era acompanhado pelo traço de José Aguiar. Naquele texto escrevi que Diniz era um dos mais prolíficos roteiristas e desenhistas de histórias em quadrinhos do Brasil, e eu não estava brincando. Enquanto você lê essa resenha de uma publicação que foi lançada a poucos meses, Diniz já tem outra HQ nas livrarias.

Agora explico: Curioso por que a HQ é uma espécie de biografia do fotógrafo carioca Maurício Hora, do qual presenciei uma marcante exposição alguns anos antes, sem ter muita noção de quem era o autor. Sua vida e a história do morro são indissociáveis, e a história do Morro da Providência (antes conhecido como Morro da Favela) é indissociável da trajetória do Rio de Janeiro.


Quanto a fazer jus ao autor, quero dizer que o traço peculiar e totalmente particular de Diniz, que resulta de uma mistura de ilustração de cordel, traço infantil e o expressionismo, minou minha vontade adquirir seus livros durante algum tempo. E para tirar logo essa questão do caminho, já que eu imagino não ser o único que se incomodava com o traço de Diniz antes ler suas HQs, devo dizer que todo o preconceito que eu tinha foi por água abaixo.Qualquer leitura mais aguçada – e menos preguiçosa – de seu traço nos revela composições arrojadas e um preto no branco intrínseco e criativo. Se todos seus personagens parecem bonecos, o que pode dar a idéia de algo infantilizado, essa relativa leveza faz bem a uma história que, em outras mãos, poderia ficar lembrada só pela crueza e crueldade num traço realista.

LEIA AQUI UM PREVIEW DE MORRO DA FAVELA

Agora vamos ao que mais importa – para mim, ao menos – a narrativa. Apesar de favelas estarem em voga há pelo menos 10 anos nos cinemas e se espalharem bem pelas artes plásticas, literatura, música e quadrinhos, existem muitos ângulos a ser explorados. Pelo impacto do assunto para a sociedade de hoje, acredito que vale a pena conhecer os muitos lados dessas histórias.


Morro da Favela 
funciona como um docudrama em quadrinhos que nos apresenta o primeiro morro carioca e o início do tráfico de drogas “moderno” nos anos 60 e 70. Maurício (através do roteiro e traço de Diniz) começa nos contando sobre como seu pai, Luizinho, iniciou a primeira boca de fumo do lugar. Tudo era diferente, com um certo romantismo e ingenuidade, mas logo as coisas começam a ficar feias, as novas gerações engolindo as antigas e o pouco de honra que existia foi por água abaixo.

Maurício, viu seu pai na prisão quando criança e ao longo dos anos perdeu muitos amigos direta ou indiretamente por causa do tráfico. Como um dos personagens de Cidade de Deus, se tornou fotógrafo, mas de uma maneira diferente e sem muitas cenas de ação bem coreografadas. Através de sua própria e íntima trajetória, acaba nos dando uma bela aula de história a partir de quem está lá em cima, sem fazer disso um um protesto irado ou um circo de horrores.

E quando a sensibilidade de Diniz encontra-se com uma história contemporânea e inspiradora, é difícil de largar a leitura. É um livro que daria gosto de ver na mão de alunos, ao invés de algumas adaptações de obras literárias clássicas executadas sem alma.

Para fechar, aqui vai uma leitura recomendada: A HQ jornalística de Mau Mau e Augusto Paim para o Cartoon Movement sobre a ocupação do Morro da Providência em 2010, com participação do próprio Maurício Hora.

 

 

EDITORA BARBA NEGRA E LEYA APRESENTAM: MORRO DA FAVELA

FORMATO
: 24 x 17 cm
PÁGINAS: 128 páginas em p&b
PREÇO: R$31,90 (em promoção)
TEXTO E ARTE: André Diniz.
FOTOS: Maurício Hora

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Reviews#72 – Revista 1ØØØ #2/3/4 (DW Ribatski/Daniel Gisé/Tiago Elcerdo)

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É muito bom ver que não só o público tem acordado para os quadrinhos autorais brasileiros dos quais nos tanto gostamos e tentamos apresentar para nossos leitores. Editoras grandes, de médio porte, pequenas e não-editoras. Quadrinhos de qualidade estão saindo por todos os lados aqui no Brasil, caso você ainda não tenha notado. E com essa torrente de lançamentos (não que tenhamos um mercado super bem estabelecido, mas em comparação com as décadas passadas, tudo vai muito bem), a lógica é que as coisas comecem a ficar cada vez mais interessantes. E mesmo que hoje em dia existam excelentes exemplos de quadrinhos totalmente financiados de maneira independente, é muito legal ver uma editora como a a Barba Negra (que tem a editora portuguesa Leya por trás) se aventurar em projetos pequenos, mas bastante significantes, como essa Revsita 1ØØØ, do selo Cachalote, comandado por Rafael Coutinho.

A idéia básica é que cada quadrinhista convidado apresente uma história curta, entre 16 e 32 páginas, sem textos, com uma tiragem de 300 exemplares custando R$ 10 cada, no lançamento (em algumas lojas, vendida a R$15,00). O dinheiro, diferente da prática comum no mercado, vai direto para o artista. Sim, o que temos aqui é algo muito parecido com os fanzines que você costumava comprar (ou passava os olhos), mas com artistas de certo nome e um bom (apesar de simples) acabamento. E como os fanzines, é um excelente showcase para esses artistas que tem poucos ou nenhum trabalho “solo” publicados, aqui distribuidos com o suporte de uma editora em franca ascensão. E isso significa que, se você não está interessado em comprar pela internet, pode encomendar através da sua livraria ou comic shop de opção.

Como não consegui encontrar o número 0001 (esgotada?), de autoria do próprio Rafael Coutinho, faremos uma curta análise dos 3 lançamentos seguintes. Como são histórias muito curtas, não me aprofundarei na análise para não estragar surpresas.

Começando pelo 0002, La Naturalesa, do músico e quadrinhista curitibano DW Ribatski. Por causa do uso de grandes quadros, tomando metade ou inteiramente cada página, parece ser a história mais curta, e também a que menos se importa em criar um arco dramático, sem demérito. Sua arte cheia de vazios cai como uma luva para que uma história surrealista não se perca em clichés, embora seja bastante percepitível a influência do filme “Anticristo“, do cineasta Lars von Trier.

O número 0003 é de autoria do ilustrador paulista Daniel Gisé, do qual tomei conhecimento pela primeira vez através das páginas da saudosa revista Sociedade Radioativa. Desvio poderia muito bem fazer parte de uma revista pulp norte-americana dos anos 50. Um homem comum é alvo de um atentado e perde a memória, mas talvez ele já estivesse predestinado a não ser a pessoa que sempre foi. Não só a história se passa nos 50s (aparentemente), como os desenhos e a ambientação logo nos remetem à época. Com uma pitada do neurótico Philip K. Dick, Gisé é o artista que, pelo menos nesses primeiros lançamentos, mais se aproveitou das poucas páginas para trabalhar sua narrativa, com grande sucesso.

Por último temos o 0004, Bebê Gigante, de Tiago ‘Elcerdo’ Lacerda. Sua belíssima arte cheia de rabiscos funciona perfeitamente para os tons grotescos que permeiam a história de um casal que cria um bebê encontrado numa floresta, alguns séculos atrás. O bebê tem um apetite fora do normal e isso causa uma série de acontecimentos que colocará uma cidade em revolta e destruirá uma família por completo. Uma história que parece tirada das fábulas dos Irmãos Grimm. Me pergunto por que ainda não conviradam o autor para um desses projetos que adaptam importantes livros para os quadrinhos que tanto se vê hoje em dia (muitos, infelizmente, com uma arte que deixa bastane a desejar).

As Revistas 1ØØØ contém histórias curtas de leitura rápida com baixo custo e não tentam ser outra coisa. Funciona como um bom mosaico da produção autoral nacional e te deixa ansioso pra ver o que os próximos lançamentos tem a mostrar. É mais uma pequena e instigante amostra do que nossos quadrinhistas são capazes. São mil possibilidades narrativas.

BARBA NEGRA E CACHALOTE APRESENTAM: REVISTA 1ØØØ

FORMATO: 21 x 30 cm
PÁGINAS: 16/24 páginas em p&b
PREÇO: R$10,00/R$15,00
AUTORES: DW Ribatski, Daniel Gisé, Tiago “Elcerdo” Lacerda.

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